Lady Marmalade

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Comprar plantas de exterior: como escolher um jardim bonito, resistente e cheio de memória

A minha mãe tinha um arbusto que cheirava maravilhosamente bem.

Não me lembro dele porque estivesse num jardim especialmente desenhado, nem porque alguém tivesse explicado o seu nome botânico. Lembro-me do cheiro.

Há plantas que ficam assim na memória. Anos depois, encontramos novamente aquele perfume e, antes mesmo de conseguirmos identificar a planta, já regressámos a um lugar.

No caso da minha mãe, tudo indica que era um pitosporo-do-Japão, Pittosporum tobira: um arbusto de folha persistente, denso, de folhas verdes brilhantes, que produz pequenas flores brancas intensamente perfumadas, tornando-se depois amareladas.

E eu quero voltar a tê-lo.

Talvez esta seja também uma boa maneira de começar um jardim: não pela tendência, nem pelo catálogo, mas pelas plantas que queremos que façam parte da nossa casa durante muitos anos.

Depois vem a parte menos romântica e bastante mais importante.

Escolhê-las bem.

Porque comprar plantas de exterior é muito diferente de comprar decoração. Estamos a escolher organismos que vão crescer, ocupar espaço, competir por água e luz, atravessar Verões, Invernos, vento, períodos de ausência e, se tudo correr bem, permanecer naquele lugar durante décadas.

Um jardim com intenção começa por pensar no futuro.

Antes de comprar plantas, conheça o jardim

A tentação é chegar ao viveiro e apaixonarmo-nos.

Eu compreendo.

O problema é que o jardim já tem condições próprias, independentemente das nossas preferências.

Antes de comprar, observe durante alguns dias:

  • Onde há sol durante a manhã?
  • Onde incide o sol forte da tarde?
  • Que zonas ficam em sombra?
  • Onde bate mais vento?
  • Onde se acumula água depois de chover?
  • Que partes do terreno secam rapidamente?
  • Quanto espaço existe realmente?
  • Queremos sombra, flores, perfume, privacidade, frutos ou simplesmente estrutura verde?

Estas respostas são mais importantes do que a fotografia que acompanha a etiqueta.

Uma planta adequada ao lugar tende a exigir menos intervenção, menos água, menos substituições e menos frustração.

Esse é também o princípio de uma casa funcional: trabalhar com as condições reais em vez de criar sistemas que só funcionam quando tudo corre perfeitamente.

O pitosporo da minha mãe

Comecemos por ele.

O Pittosporum tobira, conhecido como pitosporo-do-Japão, é um arbusto perene originário do Extremo Oriente.

Tem folhas espessas, brilhantes e verde-escuras e pode formar um arbusto bastante denso. Sem podas restritivas, pode atingir vários metros de altura e largura, portanto aquele pequeno vaso no viveiro merece algum planeamento.

Mas a razão pela qual eu me lembro dele é outra.

As flores.

São pequenas, inicialmente brancas e depois mais amareladas, mas produzem um perfume doce e intenso no final da Primavera e início do Verão.

É uma daquelas plantas em que o impacto não depende do tamanho da flor.

Chegamos primeiro pelo nariz.

Onde plantar um pitosporo-do-Japão

Gosta de sol ou meia-sombra e de solos bem drenados.

A drenagem é importante. Um solo permanentemente encharcado não é uma boa escolha.

Também pode ser utilizado como:

  • Arbusto isolado
  • Sebe
  • Estrutura verde junto de um muro
  • Fundo de um canteiro
  • Arbusto modelado através de poda
  • Planta de grande recipiente, sobretudo nas variedades compactas

Se o objectivo principal for desfrutar do perfume, eu não o esconderia no ponto mais distante do terreno.

Plantaria perto de um percurso que utilizamos: uma entrada, uma zona de passagem, um terraço ou uma janela.

Perfume num jardim também se desenha.

Não faz muito sentido escolher uma planta pelo aroma e colocá-la onde nunca passamos.

Quando plantar

Para arbustos cultivados em vaso, o Outono e a Primavera são geralmente as épocas mais favoráveis.

No clima português, o Outono tem uma vantagem prática importante: o solo conserva ainda algum calor, as temperaturas começam a baixar e, com o regresso das chuvas, a planta pode desenvolver o sistema radicular antes de enfrentar o calor e a secura do Verão seguinte.

A Primavera também é uma boa altura, mas uma plantação recente terá de ser acompanhada com particular atenção durante o primeiro Verão.

Plantar no Verão não é necessariamente impossível quando compramos plantas em recipiente.

É simplesmente mais exigente.

Calor, evaporação e um sistema radicular ainda pouco estabelecido significam maior necessidade de vigilância e rega.

Por isso, se não houver urgência, prefiro trabalhar com as estações em vez de lutar contra elas.

Como plantar um arbusto correctamente

Não precisamos de transformar a plantação numa operação de engenharia.

Precisamos de fazer algumas coisas bem.

1. Regue a planta antes

Se o torrão estiver muito seco, hidrate-o antes da plantação.

2. Abra uma cova larga

A cova deve permitir acomodar confortavelmente o torrão e facilitar a expansão das raízes para o solo envolvente.

Uma referência útil é fazê-la significativamente mais larga do que o torrão, sem necessidade de criar um poço excessivamente profundo.

3. Não enterre demasiado

A planta deve ficar aproximadamente ao mesmo nível a que estava no vaso.

Enterrar o colo profundamente não ajuda a planta a “ficar mais segura”.

4. Volte a colocar a terra

A terra retirada pode ser melhorada com matéria orgânica quando as condições do solo o justificarem, mas não precisamos de transformar a cova numa bolsa completamente diferente do terreno circundante.

O objectivo é incentivar as raízes a explorar o solo.

5. Regue abundantemente

Mesmo que a terra pareça húmida.

A primeira rega ajuda também a assentar o solo em redor das raízes.

6. Cubra o solo

Uma camada de matéria orgânica sobre o solo pode ajudar a conservar humidade, moderar a temperatura e reduzir o aparecimento de infestantes.

Composto, casca de pinheiro e outros materiais adequados podem cumprir essa função.

Deixe algum espaço livre junto ao tronco ou colo da planta, em vez de acumular material directamente contra ele.

O primeiro Verão é importante

Uma planta descrita como “resistente à seca” não nasce resistente à seca no dia em que sai do vaso.

Esta distinção é fundamental.

O Pittosporum tobira pode tornar-se relativamente tolerante à seca depois de estabelecido. Mas uma planta recém-instalada ainda tem o sistema radicular concentrado numa área pequena.

Durante os primeiros anos, sobretudo em períodos secos, pode precisar de rega suplementar enquanto estabelece raízes no terreno.

Isto aplica-se a muitas plantas mediterrânicas e resistentes à seca.

“Baixa manutenção” descreve frequentemente a planta adulta e estabelecida.

Não significa abandono imediato.

Quero fazer uma sebe de pitosporo

É uma utilização perfeitamente possível.

O pitosporo forma folhagem persistente e responde a poda, podendo criar uma sebe verde durante todo o ano.

O espaçamento exacto deve depender da variedade que compramos, do tamanho adulto esperado e da rapidez com que pretendemos fechar a sebe.

Como orientação doméstica, podemos encontrar plantações relativamente próximas para obter uma barreira mais densa e espaçamentos maiores quando queremos uma sebe mais informal.

Mas eu não compraria vinte plantas apenas com base numa distância genérica encontrada na Internet.

Confirmaria primeiro a cultivar.

Há pitosporos compactos com menos de um metro e outros capazes de atingir vários metros.

O nome na etiqueta importa.

Não confundir todos os pitosporos

Este ponto é especialmente importante em Portugal.

“Pitosporo” pode ser utilizado para diferentes espécies do género Pittosporum, e elas não devem ser tratadas como se fossem a mesma planta.

O Pittosporum tobira de que estamos a falar não é o mesmo que Pittosporum undulatum, conhecido como árvore-do-incenso.

O P. undulatum tem comportamento invasor em Portugal e é uma espécie problemática em várias regiões.

Por isso, quando comprar, não peça simplesmente “um pitosporo”.

Procure o nome botânico completo na etiqueta.

Para recuperar o arbusto perfumado de que falo neste artigo, quero:

Pittosporum tobira.

Duas palavras pequenas numa etiqueta podem fazer uma diferença ecológica bastante grande.

Posso multiplicar o pitosporo?

Sim.

E isto torna-se particularmente bonito quando a planta tem uma história familiar.

O Pittosporum tobira pode ser propagado por estacas semilenhosas e também por semente.

As estacas permitem multiplicar vegetativamente uma planta concreta, mantendo as características desse exemplar.

Se ainda existe o arbusto original da família, ou alguém conserva um descendente dele, tentar uma estaca teria para mim um valor completamente diferente de simplesmente comprar outro.

Não seria apenas a mesma espécie.

Seria, literalmente, um pedaço daquela planta a continuar.

Como escolher plantas de exterior para o resto do jardim

Eu dividiria as compras por função.

Isto evita aquele jardim muito comum onde comprámos individualmente dez plantas maravilhosas e depois descobrimos que, juntas, não fazem exactamente nada.

1. Plantas de estrutura

São as que mantêm o jardim visualmente organizado durante grande parte do ano.

Aqui entram muitos arbustos persistentes e algumas árvores.

Criam volume, limites, privacidade e fundo para outras plantas.

2. Plantas de floração

Introduzem mudança sazonal.

Não precisam de florir todas ao mesmo tempo.

Aliás, é muito mais interessante pensar numa sucessão: alguma coisa começa na Primavera, outra assume no início do Verão, outra prolonga o interesse até ao Outono.

3. Plantas aromáticas

Alecrim, lavanda, tomilho, sálvia, murta e outras espécies podem introduzir perfume e ainda ter diferentes utilizações.

O aroma pode estar nas flores, nas folhas ou ser libertado quando tocamos na planta.

Colocá-las junto de caminhos é particularmente interessante.

4. Árvores e plantas de sombra

Se o espaço permitir, uma árvore pode alterar completamente o conforto de um jardim.

Mas aqui é ainda mais importante conhecer o tamanho adulto, raízes, copa e distância a edifícios.

A árvore de 1,5 metros que levamos do viveiro não é a árvore que estamos realmente a plantar.

Estamos a plantar a versão adulta.

5. Plantas para biodiversidade

Um jardim não precisa de existir apenas para nós.

Podemos escolher plantas que ofereçam néctar, pólen, frutos, abrigo e alimento a diferentes espécies.

Quanto mais diversificada e ecologicamente adequada for a plantação, mais interessante tende a tornar-se o pequeno ecossistema que estamos a construir.

Não compre apenas plantas em flor

É uma armadilha bastante compreensível.

Chegamos ao viveiro e os olhos vão directamente para aquilo que está a florir naquele momento.

Se fizermos isso em Abril, podemos acabar com um jardim espectacular em Abril e bastante pouco interessante no resto do ano.

Olhe também para:

  • Folhagem
  • Forma
  • Textura
  • Estrutura
  • Frutos
  • Perfume
  • Cor no Outono
  • Interesse no Inverno
  • Época de floração

Um jardim é um calendário vivo.

Planeá-lo significa pensar em Janeiro e Agosto enquanto fazemos compras em Maio.

Veja o tamanho adulto antes de comprar

Esta talvez seja a versão exterior do erro da Monstera.

Uma planta pequena engana.

Na etiqueta, procure sempre altura e largura aproximadas quando adulta.

Depois acredite na etiqueta.

Se diz três metros de largura, não plante a cinquenta centímetros da porta e confie num futuro acordo diplomático entre si e o arbusto.

Podar pode controlar muitas plantas, mas escolher desde o início uma espécie proporcional ao espaço reduz enormemente a manutenção futura.

Plantas em vaso ou no solo?

As duas opções têm vantagens.

No solo

As raízes podem explorar uma área muito maior.

Depois de estabelecidas, muitas plantas tornam-se menos dependentes de regas frequentes.

Há maior estabilidade térmica e espaço para desenvolvimento.

Em vaso

Podemos controlar melhor o substrato.

Podemos mover a planta.

É possível ter jardim num terraço ou pátio.

Conseguimos cultivar algumas espécies mesmo quando o solo existente é pouco adequado.

Mas um vaso cria também dependência.

Tem um volume limitado de água e nutrientes, aquece mais rapidamente e exige rega mais regular.

Quanto menor o recipiente, menor a margem de erro.

Um jardim em vasos pode ser lindíssimo.

Não é necessariamente um jardim de menor manutenção.

Como escolher uma planta saudável no viveiro

Não olhe apenas para as flores.

Observe a planta inteira.

Procure:

  • Folhagem com aspecto saudável
  • Crescimento equilibrado
  • Ausência de grandes quantidades de folhas amarelas
  • Ausência de cochonilhas, pulgões ou outras pragas visíveis
  • Ramos sem danos importantes
  • Substrato sem sinais evidentes de encharcamento permanente
  • Raízes em condições razoáveis

Se houver algumas raízes nos furos inferiores, isso não significa necessariamente que a planta esteja mal.

Mas um torrão completamente congestionado pode significar que precisa de intervenção em breve.

E resista à tentação de escolher automaticamente o exemplar mais alto.

Uma planta compacta, bem ramificada e saudável pode estabelecer-se melhor do que uma planta enorme que passou demasiado tempo confinada num vaso.

Um jardim bonito não precisa de muita água

Aqui a escolha das espécies é decisiva.

Em Portugal, sobretudo perante Verões quentes e períodos de seca, faz sentido privilegiar uma parte significativa de plantas adaptadas às condições locais ou a climas semelhantes.

Depois de estabelecidas, espécies adequadas podem exigir significativamente menos rega do que um jardim construído à volta de plantas com elevadas necessidades hídricas.

Isso não significa criar obrigatoriamente um jardim seco, castanho e austero.

Alecrins, alfazemas, sálvias, santolinas, murtas, medronheiros e muitas outras plantas permitem construir jardins extraordinariamente ricos em cor, perfume e textura.

A questão não é retirar beleza.

É escolher beleza compatível com o lugar.

O jardim também pode cheirar

Esta é talvez a lição que ficou daquele pitosporo da minha mãe.

Pensamos muito na aparência de um jardim e surpreendentemente pouco no cheiro.

Mas a memória de um espaço é sensorial.

Podemos desenhar perfume tal como desenhamos cor.

Perto de zonas de passagem, podemos colocar plantas aromáticas ou de floração perfumada.

Junto a uma zona onde nos sentamos, espécies cujo aroma aparece ao fim do dia.

Ao longo de um caminho, plantas cujas folhas libertam perfume quando lhes tocamos.

Um jardim pode ter estações olfactivas.

E isso transforma a relação que temos com ele.

Antes de comprar vinte plantas, compre papel

Faça um desenho muito simples do jardim.

Não precisa de estar à escala perfeita.

Marque:

sol;

sombra;

casa;

muros;

caminhos;

zona de refeições;

pontos de água;

árvores existentes;

plantas que quer conservar.

Depois escreva aquilo que precisa em cada zona.

“Privacidade.”

“Perfume.”

“Sombra.”

“Cor.”

“Baixa manutenção.”

“Ervas.”

“Flores para polinizadores.”

Só depois procure plantas.

Esta pequena inversão evita que o jardim se transforme numa colecção de compras individuais sem relação entre si.

E comece pelas plantas que significam alguma coisa

Há uma tendência para pensarmos o jardim como projecto estético acabado.

Eu prefiro pensar nele como arquivo vivo.

Uma árvore plantada quando nasceu um filho.

Uma aromática trazida de uma viagem.

Uma roseira oferecida por alguém.

Uma planta multiplicada do jardim dos avós.

O pitosporo que a mãe tinha.

Não precisamos de transformar todas as plantas em símbolos, evidentemente. Às vezes um alecrim é apenas um alecrim e está tudo bem.

Mas algumas podem carregar história.

E talvez por isso faça sentido escolher devagar.

A Lady Marmalade pensa a casa como um espaço habitado, funcional e verdadeiro, em vez de uma vitrina aspiracional. O jardim pertence à mesma casa. Não precisa de estar terminado, nem de parecer saído de um catálogo. Precisa de conseguir crescer connosco.

O que eu faria primeiro

Se quisesse começar agora um jardim novo, não compraria vinte espécies.

Compraria primeiro três tipos de plantas.

Uma planta de memória.

No meu caso, o Pittosporum tobira.

Uma planta de estrutura, adequada ao tamanho e às condições do jardim.

E algumas aromáticas ou plantas adaptadas ao clima que vou realmente utilizar, tocar, cheirar ou ver da janela.

Plantaria no momento adequado, acompanharia a primeira estação e observaria o que o jardim me diz sobre vento, água, sol e solo.

Depois acrescentaria.

Porque um jardim não precisa de ser montado num fim-de-semana.

Aliás, uma das melhores coisas que podemos fazer por ele é precisamente o contrário.

Dar-lhe tempo.

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