Lady Marmalade

Ser mãe por dentro: o que ninguém vê, mas toda a gente julga

Ser mãe não é só um papel. É uma travessia.

É um corpo que se transforma, uma mente que se fragmenta, uma identidade que se dilui e reaparece — tantas vezes sem nome.

Ser mãe é entrar numa sala onde toda a gente acha que pode opinar sobre a tua forma de estar, de cuidar, de ser. Mesmo quando ninguém vê o que dói. Mesmo quando ninguém pergunta como estás.

Dizem-nos que ser mãe é o mais bonito dos papéis. E é. Mas não é só bonito. É exaustivo. É solitário. É contraditório.

E, sobretudo, é profundamente julgado.


Há uma pressão invisível que começa ainda antes da barriga crescer.

Vem nas perguntas: “Para quando?”, como se a maternidade fosse uma obrigação cronológica.

Vem nos olhares: “Já tens idade para…”, como se o tempo biológico fosse um aviso moral.

E depois vem o resto: a forma como parimos, como amamentamos (ou não), como educamos, como alimentamos, como voltamos (ou não) ao trabalho.

Nunca é suficiente.

Se nos dedicamos demasiado aos filhos, dizem que perdemos ambição.

Se voltamos ao trabalho cedo, acusam-nos de frieza.

Se estamos cansadas, dizem que é normal.

Se gritamos, somos histéricas.

Se choramos, somos instáveis.

Se estamos caladas, somos ausentes.

A maternidade, para muita gente, continua a ser um espaço de idealização colectiva e abandono íntimo.


Dentro de nós, há camadas que ninguém vê.

O medo constante de falhar.

A culpa por não ser sempre doce, sempre disponível, sempre paciente.

A saudade de quem éramos antes.

A frustração de não termos tempo para estar com os filhos como queríamos — ou connosco próprias.

Sim, também sentimos raiva.

Sim, às vezes arrependemo-nos.

Sim, há dias em que queremos fugir.

E isso não nos faz menos mães. Faz-nos humanas.

Mas a sociedade não quer mães humanas.

Quer mães funcionais. Bonitas. Educadas. Incansáveis.

Que saibam gerir a casa, o trabalho, os filhos, o corpo e a sanidade mental — com um sorriso calmo, uma marmita saudável e a lancheira do filho pronta às 7h da manhã.


Ninguém fala do luto que é deixar de ser só mulher.

Ninguém fala do corpo que se estranha.

Do sexo que muda.

Da vida íntima que se esvazia.

Do cansaço que se torna crónico.

Do invisível que se acumula — e nos parte aos bocadinhos, se ninguém vê.

Há mães que vivem com medo de dizer a verdade.

De que não gostam de brincar.

De que estão fartas de responder a tudo.

De que sentem que se perderam.

E que não sabem quando — ou se — vão voltar a encontrar-se.


Não somos menos mulheres por sermos mães.

Mas também não deixámos de ser mulheres por ter filhos.

Temos corpo. Desejo. Voz. Limites.

Temos o direito de estar cansadas.

Temos o direito de pedir ajuda.

Temos o direito de não saber tudo.

Temos o direito de falhar.

E temos o dever de parar de fingir que não nos custa.

De parar de encolher a dor para caber no ideal.

De parar de competir com outras mulheres — como se a perfeição existisse.


Hoje, escrevo para ti, mulher-mãe.

A que ama.

A que grita.

A que segura tudo com fios invisíveis.

A que se questiona.

A que se culpa.

A que ainda procura espaço para respirar.

Não és fraca.

Não estás sozinha.

E não precisas de ser tudo o tempo todo.

És inteira. Mesmo nas tuas metades.

És suficiente. Mesmo quando duvidas.

És mulher. Sempre.

Feliz Dia da Mãe — sem filtros. Sem culpas. Sem performance.

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