Sentar-me é um Acto Revolucionário
Sobre tudo o que as mulheres fazem quando “não fazem nada”
Cresci a ver mulheres de pé.
A cozinhar.
A limpar.
A inquietarem-se com as nossas febres, birras, cadernos da escola, sopas por comer.
A preocuparem-se com tudo.
A carregarem mais do que deviam.
Mas uma coisa eu não via com frequência:
uma mulher sentada.
Sentada a descansar.
Sentada sem culpa.
Sentada sem justificar a pausa com cansaço extremo.
Sentada só porque sim.
Só porque o corpo também tem direito à inércia.
E por isso agora eu sento-me.
Mesmo quando há coisas por fazer.
Mesmo com loiça no lava-loiça.
Mesmo com migalhas no chão.
Mesmo com mil “deveres” a latejar na cabeça.
Eu sento-me.
Às vezes para fazer algo que me dá prazer.
Às vezes para não fazer nada.
Às vezes o corpo e a mente ardem por dentro —
urgem, gritam, exigem:
Levanta-te!
Há tanto por fazer!
Ainda não terminaste nada!
Mas eu permaneço.
Sento-me.
Fico.
É nesse gesto, simples e desobediente,
que silencio o peso das gerações.
A voz das mulheres que vieram antes de mim.
Que não tinham tempo para parar.
Que eram olhadas de lado se repousassem.
Que confundiam valor com utilidade.
Que aprenderam que amar é servir — sempre de pé.
Agora, ao meu lado,
a minha filha encosta-se ao meu peito.
Respira devagar.
Não faz nada.
Mas faz tudo.
Faz memória nova.
Faz futuro diferente.
Faz corpo no presente.
As duas ali.
Imóveis.
Inteiras.
Duas mulheres a descansar — como se o mundo não estivesse a arder à volta.
Como se o descanso também fosse um direito.
Como se parar fosse uma escolha sagrada.
E é.
Na Lady Marmalade, escrevemos sobre isso: o direito à pausa. À cozinha com alma. À casa que não exige perfeição. À maternidade que também é repouso. À mulher que se dá permissão para sentar — mesmo com o mundo por arrumar.
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Descobrir que não fazer nada… é, tantas vezes, fazer tudo.

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