Amanhã, 2/12, faço anos — e este foi o ano em que voltei a ser casa para mim.
Amanhã faço 48 anos
Há textos que não são bem textos — são lugares.
Este nasceu na véspera do meu aniversário, esse território onde já não há espaço para balanços apressados. Há apenas a verdade. A verdade sobre o que ficou, o que se perdeu, o que cresceu e o que tive, finalmente, a coragem de deixar partir.
2025 não foi um ano fácil.
Foi um ano fundador.
Não daqueles que entram na nossa história pelo brilho, mas daqueles que ficam pelas raízes. Foi duro e fértil. Confuso e luminoso. Cheio de silêncios difíceis e de clarezas que não se esquecem.
Foi, sobretudo, o ano em que deixei de sobreviver e comecei a viver de outra forma.
Porque a maturidade não é leve.
Mas é profundamente libertadora.
O corpo chamou-me de volta — e eu finalmente ouvi
Houve um tempo, lá atrás, em 2019, em que percebi que a vida podia ruir sem fazer barulho.
Mas foi agora, em 2025, que compreendi verdadeiramente a mensagem.
Durante demasiado tempo vivi como quem cumpre. Trabalhei em excesso. Confundi produtividade com valor. Colecionei tarefas para sentir que estava a fazer o suficiente, enquanto me ia esquecendo de mim.
Até o corpo dizer basta.
Não com um grito, mas com um cansaço tão profundo que já não podia ser ignorado.
O corpo é um mestre honesto. Não aceita atalhos nem desculpas.
Este foi o ano em que parei.
O ano em que ouvi.
O ano em que percebi que viver num estado permanente de urgência também é uma forma de nos abandonarmos.
Não foi bonito.
Foi verdadeiro.
A cura começou no essencial
Em 2025 tive plantas.
Tive animais.
Tive terra.
E descobri que a vida estava exatamente aí.
Num vaso que pede água.
Num cão que pede presença.
Num jardim que responde ao cuidado com uma fidelidade desarmante.
Cuidar das plantas devolveu-me método.
Cuidar dos meus animais devolveu-me ritmo.
Cuidar da casa devolveu-me corpo.
As coisas pequenas ensinaram-me aquilo que, por vezes, demoramos anos a aprender: a regulação começa nos gestos repetidos.
Viver é aparecer.
Viver é cuidar.
Viver é repetir pequenos gestos até que deixem de ser tarefas e passem a ser casa.
Foi também o ano em que percebi que tudo o que depende de mim floresce quando eu deixo de me abandonar.
Limites não afastam — estruturam
Este foi o ano em que deixei de confundir bondade com disponibilidade.
O ano em que aprendi a dizer “não” antes de adoecer.
O ano em que percebi que só posso cuidar verdadeiramente dos outros quando também cuido de mim.
Os limites são arquitetura.
São aquilo que sustenta a casa, não aquilo que a fecha ao mundo.
Dizer “não” tornou-se um gesto de autocuidado.
Dizer “sim” apenas ao que me honra tornou-se uma escolha consciente.
E sair de histórias que já não me pertenciam tornou-se uma forma de respeito por mim própria.
Hoje sei que os limites não afastam pessoas.
Revelam quem está disposto a caminhar connosco.
A viagem e a pausa deixaram de ser fuga
Viajei.
Voltei.
Parei.
Recomecei.
Um movimento imperfeito, mas consciente.
A viagem deixou de ser uma forma de escapar.
Passou a ser uma forma de observar.
A pausa deixou de ser culpa.
Passou a ser regresso.
E há algo profundamente libertador em descobrir, aos 48 anos, que ainda estamos a tempo de mudar o ritmo da nossa vida sem perder o rumo.
Crescer é simplificar
2025 ensinou-me aquilo que nenhuma década anterior conseguiu.
Que a felicidade adulta costuma ser simples.
Que a paz exige disciplina.
Que a saúde emocional não se improvisa.
E que não existe verdadeiro recomeço sem atravessar a própria noite.
Aprendi que crescer não é acumular.
É depurar.
É deixar partir o excesso.
O ruído.
As expectativas que já não fazem sentido.
É escolher o essencial.
Também na cozinha aprendi isso.
Os melhores pratos raramente são os mais complicados.
Precisam apenas dos ingredientes certos, do tempo certo e da intenção certa.
A vida também.
Amanhã faço 48 anos
E, pela primeira vez em muito tempo, não sinto necessidade de fazer grandes balanços.
Sinto apenas gratidão.
Pelo que ficou.
Pelo que perdi.
Pelo que já não aceito.
E pelo que ainda quero construir.
Quero continuar a trabalhar, a cozinhar, a ensinar, a escrever, a acompanhar pessoas e a cultivar uma vida que faça sentido.
Não com promessas fáceis.
Mas com método, rigor e alma.
Quero tempo.
Quero viver o meu tempo.
Quero continuar a construir uma vida que me sustente, em vez de uma vida que me consuma.
Hoje agradeço.
Porque viver, finalmente viver, é isto:
Escolher-nos todos os dias como quem escolhe uma casa.
Para cuidar.
Para ficar.
Para ser.

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